Sereno como um iluminado, olhava-me com paciência. No fundo dos olhos, uma certeza cósmica guiavam as palavras. Sem se mexer disse com voz calma e sem alteração.
_ Tope o que sente. Tope sentir isso tudo. Tope estar no fundo do poço. Aceite a dor chegar e preencher tudo de angústia. Por mais que deseje sentir-se melhor, tope primeiro sentir o pior. Não lute mais. Tope sentir sem querer excluir esse sentimento. Não deseje que ele não exista. Olhe e veja que existe. Encare de frente. Ele é seu, lide com isso. Não há cura antes de doer. Enfrente o que você tem evitado toda uma vida. Deixe se revelar. Abrace e ponha no colo isso que é seu.
Desesperadamente olhei para ele como uma criança de sete anos. Procurei alento em seus olhos inabaláveis. Ele, permaneceu imune à chantagem emocional. Permaneceu terno também. Depois de algum tempo, me restou obedecer.
Sentei-me, fechei os olhos e abracei aquela solidão terrível. Coloquei no colo toda aquela miséria humana. Era eu que carregava. Era eu a carregada.
_ P e ç a colo. S i n t a o colo. S e j a o colo. Respire esse colo. Abrace o seu colo. Seja o seu próprio colo.
Respirei bem fundo. Acalmou. Uma vibração diferente me brotou por dentro. O corpo pendia de um lado ao outro por uma força maior, sem comando do pensamento. Me abraçava dentro de meus braços, sentindo-me eu mesma… e toda a humanidade.
Emocionada, foi como se meus braços fossem se esticando e viajando quilômetros e quilômetros numa distância infinita metafísica. Alcançando pessoas em tempos diferentes. Todos meus relacionamentos do passado. Todos do meu presente e futuro. Outros eus que já me habitaram, outros que ainda me habitarão. Outros nós. Meu colo era então muito maior do que eu pudesse desejar antes. Meu colo era o mundo todo e eu mesma em proporção una.
Inconformada nesse espaço, é constante me sentir torta. Onde à noite me desapareço no anonimato, enquanto na luz do dia, me mimetizo em algum canto qualquer retendo de alguma forma um rio que pede desaguar. Se relaxo, da voz me brota um mundo inteiro como foz. Se canto, canto pra dar sentido ao rio que corre sem ser visto. Como um farol, ilumino coisas que minha alma procura e procura.
Quando vou de encontro com o mundo, navegando nesse rio com a lanterna em mãos, me sinto pequena na escuridão, quase boba, custando a acreditar no poder dessa luz. Vou aprendendo a incluir e aceitar essa nova descoberta. São muitos outros corações que acham nessa luz o farol de suas buscas próprias. Precisam disso na mesma medida que eu preciso iluminar. Um encontro metafísico orquestrado pela engrenagem universal. E quando pequena e boba me sinto, me agradecem por isso.
Com as mãos apertadas em punho, ele levantou-se enérgico olhando em meus olhos diretamente. O entusiasmo ancião de quem entendeu o segredo maior da vida pulsava por entre saliva e dentes.
_ Toda criatura neste mundo, nesse universo todo, existe por um bem maior. Nosso desafio aqui, nessa existência, é entender, compreender como entregar o nosso melhor para o mundo. E isso só é possível sendo cem porcento autêntico. Seja o que você veio ser nessa vida. Não tenha medo de ser e sentir tudo isso. Você é parte do todo e merece ser quem nasceu para ser. Todos precisamos disso. Seja apenas você. Seja isso tudo o que você é, te peço.
Meu coração agora cheio de coragem se acalmava olhando pra ele, sorrindo. Meu ego ia criando mil projeções em seu olhar. E minha humanidade ancestral ressoava em suas palavras.
Num abraço cósmico selamos nosso encontro. Depois daquele dia ainda nos encontramos algumas vezes. Ele enérgico e sábio, torcendo por mim. Eu, procurando o caminho, desejando controlar e incluir as polaridades dentro de mim. Ele, humilde mostrando o trabalho de uma vida inteira. Eu só começando a minha trilha.
Sobre a autora:
Oi, sou a Mari. Sou artista e jornalista. CRIANDO CRIATURA nasceu nesse exercício de elaborar o mundo. Às vezes poesia, às vezes reflexões com referências mil, outras vezes alguma surpresa qualquer, quem sabe?
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